OTA: SEMPRE MAD, MAIS QUE MAD

Atualizado: Set 28

Por Márcio Jr. (originalmente publicado no site Raio Laser em 27/09/21)

WORKAHOLIC, OU MELHOR, OTAHOLIC

SEXTA: UM DIA DE HORROR


Sexta-feira, 24 de setembro de 2021. O dia não poderia ter começado pior. Fui acordado por minha esposa, Márcia Deretti, aos prantos:

– Márcio, me ajuda! Uma repórter do SBT me procurou perguntando sobre a morte do Otto Guerra!


Tentando raciocinar dentro da súbita onda de desespero, nos pusemos a ligar, sem sucesso, pro próprio Otto. No início dos anos 2000, a Márcia havia trabalhado na Otto Desenhos Animados. A conheci graças a uma viagem em que ela acompanhava o cineasta gaúcho a Goiânia. Amor à primeira vista, ela deixou o estúdio e veio pro Centro-Oeste, onde nos casamos e criamos a MMarte Produções – que, entre outras coisas, recentemente lançou Nem Doeu, autopornografia, do Otto.


Alarme falso. Em poucos minutos, o Otto nos retorna. Alívio e gargalhadas. Enquanto a adrenalina baixava, um pensamento tomou minha mente, como um raio: “E se for o Ota?”. Em um desses movimentos típicos do inconsciente, expurguei a ideia com a mesma velocidade com que ela surgiu. Havia um longo dia de trabalho pela frente e já estava nos meus planos ligar pro mais divertido e amalucado dos meus amigos.

Por volta das 16h, protocolando uma prestação de contas na Secretaria de Cultura de Goiânia, recebo uma ligação do Sidney Gusman, editor da MSP e do site Universo HQ. Sidão me pergunta se eu tenho notícias do Ota, pois havia um boato de que ele havia sido encontrado morto em seu apartamento, na Tijuca. Atônito, conto sobre o mal-entendido envolvendo o quase-xará Otto Guerra. Ligo pro Ota, envio mensagens de whatsapp e nada de resposta. Nesse meio tempo, começam a chover mensagens pedindo notícias do cartunista – que logo se transformam em notícias confirmando seu falecimento. Confesso que passei o resto do dia acalentando a tola esperança de que tudo não passasse de mais uma das tresloucadas brincadeiras do Ota. Havia falado com ele, pela última vez, na terça passada.


CONHECENDO OTA EM CARNE, OSSO E COLETE DE FOTÓGRAFO


COM MEU GRANDE AMIGO OTA

Conheci pessoalmente o Ota na saudosa Rio Comicon, início da década passada. Ele participaria de uma mesa com Angeli e Laerte – e eu fiquei pensando como seria difícil estar sentado entre gênios, shakespeares do humor gráfico. Mais uma das minhas infinitas tolices. Mal o papo começou e Ota roubou a cena, com seu humor idiossincrático. Ainda me lembro de Angeli e Laerte literalmente rolando de rir a cada frase proferida pelo cartunista.


Em 2015, o cartunista foi convidado a participar do GO HQ, um evento local de histórias em quadrinhos. Com pouca experiência em produção, os organizadores me pediram para cuidar do Ota na cidade – um verdadeiro presente em minha vida. Litros de cerveja, toneladas de gargalhadas e o início de uma profunda amizade que jamais imaginei terminar de forma tão inesperada. Na ocasião, ao lado do cinegrafista Katu Leão, gravei uma entrevista de cerca de duas horas, como parte de um projeto audiovisual que ainda não se concluiu sobre quadrinhos brasileiros. Agora é questão de honra.


FAZENDO A BARBA, AO VIVO E A SECO

De lá para cá, foram muitos encontros – todos marcados por efusiva diversão – e um contato quase cotidiano na virtualidade do mundo contemporâneo. Rara era a ligação que não ultrapassasse uma hora de duração, em meio a histórias antológicas e hilárias sobre quadrinhos e vida. Nos últimos meses, devido ao projeto de republicação de Os Estranhos Hóspedes do Hotel Nicanor, estávamos ainda mais próximos. Muitos planos em gestação. A ideia de nunca mais conversar com Ota me causa, nesse exato momento, uma dor lancinante. Talvez por isso eu esteja me obrigando a escrever esse texto.


MAD É POUCO

SEMPRE MAD, MAIS QUE MAD

Otacílio d’Assunção Barros, o Ota, está indissociavelmente relacionado à revista MAD no Brasil. Foi ele quem trouxe o magazine humorístico para o país, ainda em 1974, pela editora Vecchi. Graças às marcas que imprimiu ao título – como a presença de autores e temas nacionais, além da profunda intimidade com os leitores –, foram décadas de sucesso estrondoso, colhido em diferentes casas editoriais. Ouso afirmar que aqui, mais do que Alfred E. Newman, a cara da revista era o próprio editor-cartunista, encarnado no bonequinho taquigrafado nos histriônicos Relatórios Ota – que faziam disparar as vendas da publicação. Um feito que, por si só, justificaria uma vida. Mas que diante da importância de Ota para a história dos quadrinhos no Brasil, é pouco.


Após o início – ainda imberbe – na Ebal, Ota fez carreira na Vecchi, onde foi responsável por uma verdadeira revolução na HQ brasileira. Ao final dos anos 1970, trouxe à luz uma série de publicações que não só dava continuidade, mas amplificava e renovava a tradição dos quadrinhos de terror no país: Spektro, Sobrenatural, Pesadelo e Histórias do Além. Se num primeiro momento estes gibis exibiam apenas material enlatado – obedecendo à velha sanha das editoras em obter lucro fácil –, gradativamente Ota ocupou suas páginas com mais e mais quadrinistas nacionais.

UMA DAS ANTOLÓGICAS EDIÇÕES DE SPEKTRO