VILA-VELHA: LEIA O TEXTO DE INTRODUÇÃO E APROVEITE PROMOÇÃO
- MMarte

- há 3 dias
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Vila-Velha: A Cidade da Bolha é uma graphic novel INÉDITA de Flavio Colin, que aguardou 35 anos para ser publicada. Como se não bastasse, a HQ marca um dos encontros mais surpreendentes dos quadrinhos nacionais: Colin e Luiz Gê! Tudo isso fruto do brilhante roteiro de Caco Xavier.
Após a bem-sucedida campanha no Catarse – com todas as recompensas devidamente enviadas – e o sucesso do lançamento na CCXP – com a presença dos mestres Caco Xavier e Luiz Gê –, Vila-Velha: A Cidade da Bolha chega à loja da MMarte. E você ainda pode adquirir o combo promocional Vila-Velha + God Is a Lilly of the Valley.
Para entender um pouco mais a importância desse resgate realmente histórico, fique aqui com o texto de introdução escrito por Márcio Paixão Jr.
VILA-VELHA: A arqueologia de uma HQ fora do tempo e do espaço
Por Márcio Paixão Jr.
Os últimos anos assistiram a um resgate mais que merecido da obra de Flavio Colin. Diversas editoras têm devolvido suas HQs ao público, em reedições especialíssimas – a própria MMarte foi responsável pelo sucesso Os Estranhos Hóspedes do Hotel Nicanor. Mas uma graphic novel inédita era algo que parecia impossível.
Colin, que começou a publicar profissionalmente na longínqua década de 1950, foi um dos pináculos dos quadrinhos populares brasileiros. Digo populares porque as HQs nem sempre gozaram do cuidado editorial tão comum aos dias de hoje. Pelo contrário, os gibis eram impressos em papel barato e distribuídos quase que exclusivamente em bancas de jornal. Vítima de um preconceito elitista, essa tradição gráfica passava ao largo de qualquer avaliação crítica mais profunda, de modo que prestígio intelectual era carta fora do baralho.
Para os ditos quadrinhos de banca, os conceitos de “obra” e “autor” eram particularmente difusos. A característica central dos gibis era sua descartabilidade: após recolhidos das bancas para liberar espaço para novos lançamentos, eles virtualmente desapareciam, sem jamais constituir um catálogo que pudesse ser acessado em outros momentos – como acontece com as obras literárias, disponíveis nas bibliotecas e comercializadas nas livrarias.
Entretenimento ligeiro, os quadrinhos eram produzidos sob uma lógica industrial. A autoralidade, portanto, não era variável de primeira ordem para esse mercado, mas uma espécie de efeito colateral: alguns quadrinistas possuíam uma identidade tão poderosa que terminavam por se notabilizar. É o caso de Jayme Cortez, Julio Shimamoto e, claro, Flavio Colin. Nesse universo da HQ popular, a produção só se dava sob demanda das editoras, e não por uma necessidade artística individual dos quadrinistas. O que era produzido, era obrigatoriamente publicado. Logo, encontrar Vila-Velha: A Cidade da Bolha, HQ inédita de Colin, é um milagre digno de São Agostini.
Descobrindo um tesouro
A saga da descoberta de Vila-Velha: A Cidade da Bolha é tão intrigante quanto a graphic novel em si. Curador do espólio de Flavio Colin, Ivan Freitas da Costa (CCXP, Chiaroscuro Studios) havia se deparado com uma HQ longa do desenhista, da qual não conseguia identificar o título nem os possíveis coautores, uma vez que as páginas iniciais – onde usualmente constam os créditos – não estavam preservadas no acervo. Ele então me encaminhou o material perguntando se eu fazia ideia do que seria aquilo. Em choque, percebi que se tratava de um trabalho inédito. Ainda mais impressionante, havia ali a inusitada participação de outro mestre dos quadrinhos nacionais, Luiz Gê.
Imediatamente, entrei em contato com Gê. Sua lembrança da obra era vaga. Após muita busca em seus infinitos arquivos, encontramos as páginas iniciais que faltavam e onde constava apenas o primeiro nome do roteirista: Caco. Pela assinatura de próprio punho, reconheci tratar-se de Caco Xavier.
Afastado dos quadrinhos nas últimas décadas, Caco – que também é desenhista – foi figura onipresente no panorama dos anos 80 e 90, tendo publicado nas principais revistas do período: Mega Quadrinhos, Animal, Mil Perigos, Bundas e Lúcifer, entre outras. Participou de diversos salões de humor, amealhando prêmios em Piracicaba, Ouro Preto, Piauí, Jundiaí e Salão Carioca, além de ter sido curador da lendária Primeira Bienal Internacional de Quadrinhos, que trouxe ao Rio de Janeiro artistas do calibre de Moebius, Will Eisner, Alberto Breccia e Sergio Bonelli.
Visto que seu distanciamento das HQs ocorreu num período ainda embrionário da internet, pouco rastro havia sobre Caco Xavier. Daí em diante, seguiu-se uma investigação detetivesca até finalmente o encontrarmos – aposentado e morando em Florianópolis. Quebra-cabeças montado, chegava a hora de Vila-Velha: A Cidade da Bolha vir à tona, quase trinta e cinco anos após sua criação.
Uma obra de gênio(s)
Produzida em 1991, Vila-Velha é tudo menos uma HQ convencional. Importante recordar que a virada dos anos 80 para os 90 marcou um período de grande transformação no mercado editorial do país: a era das “graphic novels” – alcunha criada pelo velhaco Will Eisner para dar um verniz de seriedade a histórias em quadrinhos que possuíam maior pretensão artística. De repente, as bancas foram tomadas por obras como Batman: O Cavaleiro das Trevas, Watchmen, Ranxerox (via revista Animal) e O Edifício (do próprio Eisner). Os quadrinhos tornaram-se pauta obrigatória nos principais jornais e revistas brasileiros. E mesmo a TV produziu toneladas de reportagens que invariavelmente começavam com o famigerado bordão “os gibis não são mais coisa de criança”.
Contrariando as expectativas mais otimistas, a maré dos “quadrinhos para adultos” atingiu até mesmo as praias da produção nacional. Em 1991, a editora Dealer publica um marco indelével na História das HQs brasileiras: Transubstanciação, obra-prima de Lourenço Mutarelli – para todos os efeitos, a primeira graphic novel made in Brazil. A mesma Dealer encomendou Vila-Velha, mas fatidicamente foi à falência antes de sua publicação.
Não que anteriormente não houvesse trabalhos mais sofisticados produzidos nacionalmente. Correndo por fora da tradição do quadrinho popular – e sem jamais se comunicar com ela – existia o fenômeno dos herdeiros do icônico tabloide O Pasquim. Nomes como Angeli, Laerte e Luiz Gê eram autores na acepção da palavra, cujo trabalho era respeitado e discutido nos círculos mais elevados da intelligentsia brasileira. Suas tiras e charges, publicadas diariamente nos principais jornais do país, causavam comoção. Mas o “apartheid gráfico” era notório: de um lado estavam os desprestigiados quadrinistas, afiliados aos populares gibis de banca; e do outro, os incensados cartunistas, que se valiam do humor visual como instrumento de análise e crítica do Brasil.
Vila-Velha: A Cidade da Bolha nasce rompendo esses paradigmas. Sem reconhecer hierarquia entre as duas supracitadas tradições quadrinísticas, Caco Xavier promove um festivo e inaudito encontro: “A história é um meio de honrar e estar em companhia de dois mestres que situo entre os maiores quadrinistas brasileiros: Flavio Colin e Luiz Gê”.
Caco define seu roteiro como: "Uma aventura ágil, uma pitada de ficção científica e duas ou três colheres de humanismo decadente". Dizendo assim, fica a impressão de um quadrinho leve e despretensioso. Pura modéstia. Vila-Velha é, de fato, uma graphic novel. Das melhores. Suas páginas transbordam ousadia gráfica, temas complexos e um brilhante uso de metalinguagem. O diálogo entre Colin e Gê – e, por conseguinte, entre as duas vertentes do quadrinho brasileiro – se dá através da antológica HQ God is a Lily of the Valley, tomada como uma profecia incompleta na trama de Caco.
Censuradas em um festival de humor – grassavam os tempos bicudos da ditadura militar –, as duas páginas de God is a Lily of the Valley foram posteriormente publicadas, em 1973, na seminal revista Balão. Três anos mais tarde, é a vez da igualmente seminal Visão replicar a HQ de Gê, dessa vez em Portugal, dando início à carreira internacional do cartunista paulistano.
Colin (novamente) no auge
Flavio Colin é um artista cuja genialidade conseguiu ultrapassar os estreitos limites da mídia em que atuava. Seu estilo era inconfundível, mas não imutável. Ao longo de décadas de produção, seu traço evoluiu, atravessando fases que disputam a preferência de seus admiradores. Neste sentido, Vila-Velha é também uma obra singular.
Colin estava há anos afastado dos quadrinhos quando, em 1991, começou a trabalhar sobre o roteiro de Caco Xavier. Vila-Velha, portanto, registra não apenas o retorno do grande mestre à prancheta, como flagra um momento único de sua arte. O que se vê nas páginas da HQ é a transição entre a maturidade do traço da era Vecchi/Grafipar e a estilização absoluta que caracterizaria sua última fase. Aqui, ele nos deleita com cenários urbanos pouco usuais em sua trajetória, bem como lança mão de técnicas inéditas na construção do claro-escuro por meio de tramas de hachuras. É imprescindível lembrar que o roteiro entregue por Caco não trazia as páginas decupadas, oferecendo a Colin total liberdade na construção da narrativa visual – o que faz com a excelência que só os gigantes da arte sequencial possuem.
Trinta e cinco anos depois, esta pérola perdida dos quadrinhos brasileiros finalmente rompe a bolha e chega aos olhos do público. Um trabalho tão inovador e disruptivo que preserva integralmente o frescor de quando foi criado. Não é para menos. Vila-Velha é uma obra-prima impossível de ser encapsulada no tempo e no espaço – e que agora está definitivamente livre para encontrar seus leitores.
















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